Esqueça a Faria Lima.

A verdadeira certidão de nascimento do Banco Master não foi lavrada em nenhum cartório de investimentos. Foi assinada nos bastidores do governismo baiano, entre uma caneta de governador e o balcão de uma estatal de cestas básicas.

Este é o primeiro ato que o espetáculo não mostra.

I. A ALQUIMIA DO CONSIGNADO

Em 2003, o governo Rui Costa vendeu uma estatal baiana — voltada ao fornecimento de alimentos para servidores — por R$ 15 milhões. O comprador foi Augusto Lima, hoje sócio do conglomerado Master. Em seguida, Lima revendeu 50% da operação por R$ 30 milhões. Manteve metade do controle e dobrou o capital em uma única tacada.

Não foi sorte. Foi arquitetura.

O governo do estado transformou o negócio em mina: a margem de consignado dos servidores baianos, que começou em 30%, foi gradualmente ampliada até chegar a 75%. O pão do servidor tornou-se o ouro do banqueiro. O modelo se replicou por municípios e estados — e foi assim que nasceu o que viria a ser o Banco Master.

Ali estava o Toque de Midas petista: não a competência de mercado, mas o acesso ao Estado.

II. O MERCADO DA MEDIOCRIDADE DE LUXO

Por que um banco de terceira linha pagaria R$ 1 milhão por mês a Guido Mantega — o arquiteto da maior recessão da história recente do Brasil?

A resposta é o segredo mais aberto de Brasília.

No ecossistema do Poder, não se compra inteligência financeira. Compra-se o telefone que atende do outro lado. Mantega não é um gestor — é um despachante de luxo, um tradutor fluente na língua do acesso.

Mas o caso Mantega é apenas o primeiro andar do edifício. No cobertura, encontramos Ricardo Lewandowski — ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, ex-presidente da mais alta corte do país — recebendo R$ 350 mil mensais em "consultoria" do mesmo banco.

O recado é inequívoco: o Master não opera apenas como instituição de crédito. Opera como embaixada de interesses dentro da República — com representação permanente no Executivo, no Ministério da Fazenda e no próprio Supremo.

Quando um ex-presidente do STF vira consultor de um banco investigado, a pergunta que ninguém faz em voz alta é a mais importante: o que exatamente ele está vendendo?

III. A REUNIÃO PARA A QUAL ROBERTO CAMPOS NÃO FOI CONVIDADO

Há um encontro que precisa ser explicado.

Fora de agenda, sem o conhecimento do então presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, o presidente Lula reuniu-se com Gabriel Galípolo — à época diretor de Políticas Monetárias — na presença de Rui Costa, Guido Mantega e Daniel Vorcaro, controlador do Master.

Galípolo é hoje presidente do Banco Central.

Numa democracia funcional, o gestor da política monetária não se reúne, fora de agenda e às escondidas do seu superior, com o controlador de um banco sob escrutínio e com o lobista desse mesmo banco. Numa democracia funcional, isso seria o fim de uma carreira.

Aqui, foi o início de uma ascensão.

IV. A AMNÉSIA COMO MÉTODO

Lula fala hoje como se fosse a primeira vez que um banco é investigado neste país. Como se o Petrolão fosse lenda urbana. Como se o Mensalão fosse folclore. Como se a Operação Greenfield — que rastreou bilhões desviados de fundos de pensão — não tivesse resultado em dezenas de delações e condenações.

A amnésia não é sintoma. É estratégia.

O método se repete com precisão clínica: aparelhar as estatais, capturar os fundos de pensão, transformar o INSS em caixa de partido. O Banco Master não é uma anomalia — é mais um capítulo de um roteiro que já conhecemos. Os personagens mudam de cargo. O enredo permanece.

V. O VEREDITO

A CPMI tem um encontro marcado com a verdade — e não pode desperdiçá-lo.

Rastrear o dinheiro é necessário. Mas insuficiente. É preciso eviscerar o sistema: nomear o modelo, expor a arquitetura, tornar legível para o contribuinte o mecanismo pelo qual seu imposto financia o risco privado enquanto o lucro permanece blindado em offshores e consultorias milionárias.

O que chamam de "sucesso de mercado" tem outro nome técnico: capitalismo de compadrio. O lucro é privado. O risco é sempre do pagador de impostos.

Se o Brasil não estancar esta hemorragia institucional, continuaremos sendo o banquete — servido em pratos de ouro, para os mesmos comensais, com a mesma conta no final.

— Dr. Lacerda Jurista. 35 anos decifrando o sistema por dentro.

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